Giannini Supersonic

Nunca tive talento com trabalhos manuais, seja escrever, pintar ou simplesmente desenhar linhas retas. Ainda sim, sempre gostei da cultura faça você mesmo (DIY). Não poderia deixar de agradecer minha família pela influência e as mais inusitadas experiências.

Em 2008, vi uma guitarra no finado Bom Negócio (agora OLX) que me chamou a atenção. Ela estava bem barata, não era velha suficiente para ser vintage, mas estava fudida demais para ser seminova. A pintura, apesar de detonada, era linda e graças a magia do gmail, consigo afirmar que no dia 13/12/2008 peguei duas linhas de metrô e um ônibus e realizei a compra em Nova Iguaçu.

Infelizmente não tenho fotos de quando comprei, mas era uma versão muito surrada disso aqui:

O timbre era ótimo, e a tocabilidade era ok. Com o tempo, fui pegando implicância com a pintura, depois começaram alguns mal contatos, primeiro no jack e depois no knob de volume.

Era a desculpa que eu precisava para realizar a vontade de reformar uma guitarra. Segue meu relato …

Elétrica:

Não foi complicado, já sabia soldar bem e o básico de eletrônica. Minha recomendação para dar uma geral é:

  1. Desmontar com cuidado (abuse de fotos e marcador para conseguir refazer seus passos).
  2. Checar o valor dos potênciometros e comprar novos (prefiro trocar logo tudo).
  3. Procurar componentes com sinais de desgate como capacitores estufados para trocar.
  4. Trocar a porra toda e refazer todas soldas que pareçam suspeitas.

 

Algumas dicas:

  • Compre potênciometros do tipo LOG (A) para volume e LINEAR (B) para tone.
  • É possível que você compre um potênciometro com a haste maior do que o seu knob recebe, uma serra de metal usada com muito amor resolve.
  • Alguns fios como os do jack podem ficar curtos, aproveite para trocar por novos de tamanho adequado e blindados.
  • Use fita isolante para deixar as coisas organizadas e evitar curtos. Só não exagera, você não quer um circuito cheio de gosma de cola na próxima vez que for mexer.
  • Invista dinheiro em um bom jack, vale a pena.
  • Lembre de deixar todo mundo aterrado, gosto de soldar a carcaça dos pots direto no terra.
  • Não perca seu tempo com “Blindagem”. Link para os céticos.
  • A melhor loja para qualquer coisa de instrumentos é a StewMac

 

Removendo a pintura original:

Aqui eu realmente apanhei. Desmontei a guitarra e a porrada começou …

Round 1: Comecei inocente: lixa grossa pra começar, umas finas pra terminar. Horas e horas depois e mal consegui ver a cor da madeira de uns poucos cm2.
Round 2: Aqui entrou a raiva, uma velha faca de cozinha e comecei a raspar, parecia funcionar melhor, mas ainda não parecei que ia conseguir terminar o trabalho em menos de 30 dias.
Round 3: Tentei colocar método na raiva: adquiri um formão para tentar raspar com uma ferramenta mais adequada. GRANDE erro. Feri a madeira toda.
Round 4: Bateu a inteligência: comprei um adaptador de lixa para minha furadeira e … WIN!

  • Dependendo da pintura da guitarra, tem muita camada de seladora, tinta, verniz e todo tipo de plástico imaginável. Acho que na minha tinha uns 2,5mm até chegar na madeira.
  • Profissionais usam uma espécie de secador de cabelo do inferno. Não é pra mim.
  • Lixadeiras de fita não servem pois não te dão “jogo de cintura” nas partes mais sinuosas do instrumento.
  • Comece com uma lixa 80 e suba para 120, 220 e 400.
  • Quando estiver usando as lixas mais grossas, tenha com cuidado, voce pode acabar mudando o formato da sua guitarra.
  • Nos cantos e na finalização você vai ter que lixar na mão. Use um pedaço de madeira pequena para dar firmeza.

 

Pintura nova:

Esse negócio de remover a tinta me cansou, então resolvi que ia fazer um acabamento “rústico”. As opções mais simples de acabamento, que mantém a aparência da madeira são:
  • Seladora + Verniz Fosco + Lixa d’agua
  • Seladora + Verniz Brilhoso + Polimento

Decidi pela linha do verniz fosco, porém como a madeira da minha guitarra estava clara (veja a primeira foto) e os veios não estavam muito acentuados, decidi aplicar betume antes para dar uma escurecida e realçada nos sulcos da madeira.

Sobre o betume …

Aparentemente o betume é tipo um petróleo, inclusive pega fogo. A galera do artesanato adora e eu já tinha ouvido falar dele pois minha mãe é uma talentosa artesã esporádica.

O líquido é bem denso, precisa ser diluído em aguarraz (não use thinner) numa proporção muito maior de solvente. Não lembro a proporção, apenas enchi um recipiente de aguarraz e fui pingando betume e testando.

A melhor maneira de aplicar essa mistura não é um pincel, compressor e muito menos uma bomba de baygon. O que você precisa é de uma boneca. Uma boneca é uma bola feita com um pedaço de pano envolvendo uma bolinha de estopa.

Boneca

Bastante cuidado para aplicar o betume sempre no mesmo padrão para garantir uma cor uniforme. Tenha em mente que quando ele seca e é absorvido pela madeira acaba clareando um pouco, então paciência para não perder a mão. Resultado após a primeira e segunda demão (eu não queria tão escuro):

 

Aplicando o verniz

Usei o verniz fosco em spray da Colorgin. Aplicar com pincel deixa o acabamento feio e comprar um compressor seria inviável.

Um fato interessante dessa jornada, é que tudo foi feito em um apartamento. Aplicar o verniz foi particularmente interessante, para conseguir um bom acabamento a o corpo da guitarra deve estar pendurado. Hora perfeita para uma gambiarra, materiais necessários: fio rígido e dois lugares altos para amarrar ele, ou no meu caso, um lugar alto e uma escada.

 

Aplique o verniz seguindo as instruções da embalagem e vai dar tudo certo, eu usei 3 demãos e pareceu suficiente. Após a última demão, espere 72h para ficar bem seco e finalize com uma lixa d`agua (1200 pra cima).

Queria um tiquinho mais claro, mas ficou bonito …

Montagem e Regulagem:

Quanto mais você desmonta, mas difícil fica de montar. No caso, eu optei por desmontar A PORRA TODA, incluindo as peças da ponte. Fiz isso para limpar e lubrificar tudo e trocar todos os parafusos velhos por novos de aço inox (é barato e eles vão estar sempre tinindo). Prestando atenção, realmente não tem muito mistério, o complicado é regular.
 

 

Confesso que já li bastante sobre regulagem de tensor de braço e ponte. A verdade é que quando eu consigo bons resultados ainda rola muita tentativa e erro. Portanto, sem dicas nesse assunto por enquanto. O fato é que com paciência e sorte a guitarra ficou macia, com a corda baixa, oitavas reguladas e quase nenhum trastejo.

Resultado Final:

 

  

 

E agora?

Gostei muito da experiência e já estou trabalhando na segunda Giannini, será uma Jetsound B47 ano 1992, agora documentando melhor e tirando mais fotos.

Também tenho algumas coisas em mente para a Supersonic :

  • Colocar uma ponte estilo Jazzmaster
  • Trocar os captadores
  • Trocar os switches dos captadores

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Victor

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